Para quem conhece borboletas

À moda de Vinicius de Moraes

 

Para viver um grande amor,

é preciso sabê-lo também finito,

é preciso estranhá-lo

mais do que acalentá-lo.

*

Para viver um grande amor,

é preciso duvidar

de grandezas épicas,

de linhas retas,

e cuidar de admirar maremotos.

*

Para viver um grande amor,

é preciso querê-lo sempre encanto

e canto,

travessia mais do que oásis.

*

Para viver um grande amor,

é preciso emparedá-lo

e agarrá-lo

com o susto de quem oferece a mão

para o pouso breve

 e iluminado

de uma borboleta.

 

(Analice Martins – Campos, 27/08/2026)

 

Guardar: uma lição de poesia

Para Antonio Cicero, que tudo sabia das palavras

 

Quando a palavra

queda só e impotente,

é preciso guardá-la.

Não na gaveta dos bilhetes rasgados,

nem no baú trancado da memória.

É preciso gritá-la.

*

Quando as coisas findam

e o amor se vai,

é preciso guardá-lo.

Não no porta-retratos escondido,

é preciso colocá-lo à vista,

fitá-lo, admirá-lo,

iluminá-lo,

ser por ele iluminado

estar acordado por ele,

porque em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre se perde a coisa à vista.

*

Quando o pássaro se vai,

é preciso guardar seu voo,

porque é só nele que as coisas existem.

Não nelas mesmas.

 

(Analice Martins – Campos, 25/08/2026)