A lanterna do meu Natal

As luzes de neon que envolvem as ruas nessa época sempre me foram um convívio duro. Ofuscam minha visão e não iluminam nada. Passo por elas apressada desejando que logo se apaguem e devolvam aos lugares públicos e privados seus contornos reais. São muitas lâmpadas de luz contínua ou intermitente, coloridas em sua maioria: um cenário carnavalesco.

A árvore de Natal que se instala na Lagoa Rodrigo de Freitas, a cada ano mais alta e mais luminosa, é esquisita, qualquer que seja a sua decoração temática. Ninguém mais consegue olhar a sinuosidade das curvas da lagoa. Todos olham vidrados para a torre flutuante, contemplam-na como um espantalho às avessas capaz de atrair multidões e parar o trânsito. Pequenas embarcações se aproximam dela para que os ávidos possam admirar esse totem de luz. Meus olhos se cansam.

Na minha memória infantil, o cenário é tão outro… Os preparativos para o Natal sempre reuniram e ainda reúnem na casa de minha mãe mãos céleres que empacotam alimentos e os dispõem em cestas que serão entregues nesta data. Confesso também que a austeridade e o rigor daquela rotina me deixavam sem pouso. Na sala, uma pequena e mesma árvore prateada com poucos enfeites vermelhos era colocada sobre uma mesa de canto. Lá permanecia sem despertar muita atenção, sem interromper o ritmo da casa, recolhendo os presentes que, quase sempre, sem nenhuma cerimônia, eram abertos antes e, depois, devolvidos ao seu lugar forjado.

Atualmente observo essa rotina das cestas de longe. Embora haja lâmpadas na árvore que fica sobre a mesma mesa, ela é outra. Há luzes piscando. Tudo trazido pela iniciativa de minha sobrinha que, sozinha, se encarrega de comprar e instalar árvore, enfeites e iluminação. Ela não admite recusas. Mal dezembro começa, já vai nos encurralando: “Titia, pode comprar enfeites novos? Preciso de dinheiro para as lâmpadas!”. Sem ajuda, monta toda a engenhoca com requintes de tomadas e adaptadores. Mas ela não fica de fora do “ritual” da casa de minha mãe, onde mora. Corre para ajudar a avó a cumprir uma rotina de mais de quarenta anos.

Lembro-me de duas comunidades que eram assistidas com os alimentos das cestas de Natal. Uma ficava embaixo da ponte de Lapa. Quando chovia no dia 24 ou o rio Paraíba enchia, as construções de madeira, papelão e zinco pareciam que iam se desfazer naquela mesma noite. Mas o pequeno exército que minha mãe arregimentava tinha braços fortes e descia até lá onde, impreterivelmente, as famílias nos esperavam. Eu olhava assustada, queria descer, mas não me lembro se chegava até lá. Meu irmão era mais valente e não desgrudava de minha mãe que seguia sempre à frente segurando uma lanterna e uma lista em que estavam relacionadas as famílias que receberiam os alimentos.

O nosso trajeto mais árduo – e para mim chocante – ainda estava por vir. Atravessávamos de volta a ponte da Lapa e seguíamos para o Inferno Verde, comunidade que fica às margens do rio Paraíba. Todos se reuniam na entrada de um beco que me parecia um túnel infinito. Um cheiro acre de suor e álcool se misturava à realidade fétida da falta de infraestrutura sanitária. Seguia no meio dos amigos de minha mãe ajudando a carregar as cestas ou latas de leite Ninho que eram passadas de mão em mão até chegarem a seu destino. Quando minha mãe anunciava um nome da lista, jogando o foco de luz de sua lanterna sobre o papel e depois sobre as paredes das casas, meus olhos viam rostos tristes. Uma tristeza diferente de tudo que eu conhecia até então, que nunca tinha visto ao meu redor ou na televisão. Quando aquele foco de luz se projetava sobre o cômodo, com frequência dividido por mais de uma família, meus olhos se cegavam naquelas sombras. Minhas retinas retiveram para sempre aquele flashes tão distantes do neon das ruas, pois a única luz que se acendia de fato era a da lanterna que ela empunhava com mãos firmes.

A luz pálida que emanava da lanterna fazia nascer o que, depois, fui reencontrar, já de forma estetizada, nas telas de Portinari. Não a cena em si, como a da série “Os Retirantes”, mas a dor das figuras distorcidas e tão imensamente críveis na sua desproporção. A lágrima gigante que escorre do rosto da menina numa dessas é a síntese do que a minha memória guardou. Mas minha experiência estética foi posterior ao Inferno Verde e suas ruelas, seus tetos baixos que pareciam não permitir a entrada de uma pessoa mais alta. Tetos que pareciam comprimir aquelas vidas e sufocá-las mais do que abrigá-las do sol e da chuva.

Hoje tudo me parece ainda tão próximo, embora eu já não faça esse percurso ajudando o pequeno exército de minha mãe. Sua lembrança, no entanto, não me deixa relaxada diante de tantas lâmpadas e do neon. Um incômodo me faz correr da artificialidade dessa luz e esperar que, tendo cumprido sua tarefa anual de entrega das cestas, o semblante de minha mãe se refaça aliviado e iluminado. É essa a única luz que me acende a cada Natal.

(Analice Martins)

Um elefante na sala de estar

De nossa perspectiva ainda periférica e terceiro-mundista, tentamos, embora inconsoláveis, explicar crimes bárbaros e hediondos pela chave da miséria e dos processos de exclusão social. Assim, afastamos a banalização do mal e sua gratuidade com a procura de razões de natureza socioeconômica.

Quando uma criança negra, pobre, sem escolaridade e sem identidade civil rouba e mata, pensamos ser, ou queremos pensar ser, uma reação ao sistema que a marginaliza. Quando uma jovem de classe média alta, como Suzane Von Richthofen, planeja o assassinato cruel dos pais para tornar-se, apressadamente, herdeira de um império, queremos o apoio de justificativas psicológicas que deem conta da barbárie. Se não as encontrarmos, não nos importaremos tanto em ver a pele alva de Suzane castigada pelo sol das obrigações de sua pena e de seu cárcere. No mínimo, acreditamos ser uma paga justa: ter sua beleza destruída.

Mas, na sociedade brasileira, talvez imaginemos, ignorantes ou não, que esses são casos isolados, que não correspondem a uma espécie de sociopatia como em solo americano ou primeiro-mundista. Barbárie é o que escapa a qualquer explicação, infringindo severamente códigos de conduta compartilhados. Barbárie deveria ser um conceito relativizado como o de cultura. Por esse prisma, um índio canibal não é um bárbaro. É bem difícil, no entanto, exercitar nosso intelecto para entender esses fatos da cultura. Para nossos olhos cegos, barbárie é barbárie.

O sociopata é um bárbaro? Ignora códigos e convenções sociais? Ou é alguém adoecido pela sociedade e não propriamente alguém que se volta contra a sociedade? Os recorrentes episódios sanguinários dos EUA nos últimos quinze anos nos deixam, além de perplexos, indignados. Por que inocentes crianças e adolescentes em escolas têm que pagar com a vida a sanha doentia de jovens aparentemente não marginalizados pela miséria, pela família ou pela cultura?

A chacina em Newtown, no estado de Connecticut, foi mais uma da lista trágica da sociedade americana. Um jovem de 20 anos, Adam Lanza, entrou, com armas legalmente compradas por sua mãe, na escola de ensino fundamental Sandy Hook, e matou 6 adultos, 20 crianças com idades entre 5 e 7 anos, além da própria mãe, antes de sair de casa. O massacre reacendeu a memória de outra chacina ocorrida em 1999, na escola de Columbine, no Colorado.

“Tiros em Columbine”, polêmico documentário de Michael Moore, quis expor uma faceta do problema que tem encurralado a sociedade americana: a falta de controle na venda de armas de fogo. Em 2003, assisti ao filme “Elefante”, de Gus Van Sant, título homônimo ao do documentário de 1989, do inglês Alan Clarke, que lhe serviu de inspiração. O filme retrata o cotidiano de adolescentes numa escola de Portland, no estado de Oregon, o convívio entre amigos, casos de bullying disfarçados e uma certa tediosa rotina até que, sem indícios ou avisos, dois adolescentes recebem em casa, pelo correio, uma metralhadora semiautomática comprada, sem entraves, pela internet. A ausência de qualquer razão plausível para aquela compra mais do que um equívoco ou lacuna do roteiro traduz o grande elefante “ignorado” que o diretor do documentário diz estar na sala de estar das casas americanas, inclusive na da Casa Branca, e nos faz pensar: “Como passar indiferente por um elefante em plena sala de estar”? Esse comentário do documentarista é a explicação para escolha do seu título. Já Van Sant disse desconhecer tal explicação e afirmou ter pensando numa parábola budista quando escolheu o mesmo título para seu filme. Na parábola, o elefante ia sendo percebido por cegos a partir do tato e da apalpação de suas partes.

O fato é que as lágrimas de Barack Obama, se, por um lado, mostram que não há indiferença pessoal ao “elefante”, por outro, não conseguem removê-lo de sua sala de estar. As “ações significativas” que ele convocou em pronunciamento urgem há muito. Além de significativas devem ser plurais, pois o elefante deve ser apalpado por muitas partes. Duas delas me parecem estratégicas para sua remoção: rever a venda indiscriminada de armas de fogo, pois uma sociedade que precisa se armar a tal ponto padece de alguma doença grave, e discutir a formação de um imaginário glorioso e bélico porque vingado por heróis. Muitos heróis.

O herói, para épica clássica, era o representante das virtudes de um povo. O protagonismo do herói há muito já foi subvertido em nossas narrativas literárias e audiovisuais, mas parece que, numa cultura aprisionada em sua própria imagem glorificada, essa figura subsiste como “phatós” (doença) no lixo cinematográfico de parte do cinema americano, em séries, games.

Essa sociedade adoecida por sua autoimagem é um irremovível elefante. Como ignorá-lo? Crianças da escola de Newtown pediam à professora que não as deixasse morrerem, porque queriam passar o Natal. Infelizmente, seu Papai Noel não pôde entrar na sala de estar.

(Analice Martins)

Por que e como formar leitores?

     

O título deste artigo encerra uma das inquietações que a recém terminada bienal do livro em Campos me trouxe, aliás, que todo evento em torno da leitura me traz. Fico observando, enquanto também percorro os estandes das livrarias, os cafés literários, os espaços destinados a crianças e adolescentes, se toda aquela movimentação traz o saldo feliz da leitura ou o convite a ela.

Há eventos com propostas diferentes, alguns com leitores já consolidados ou especializados. Mas há aqueles que me parecem se perder na espetacularização midiática sem introjetar o desejo e a crença de que a leitura possa, de fato, contribuir para formação de sujeitos críticos mais aptos à reflexão sobre a realidade pessoal e social que os circunda.

Esse tom um tanto quanto cético talvez venha da constatação óbvia da falta de articulação necessária entre organizadores e público-alvo. Se este for de jovens leitores potenciais, as estratégias que envolvem a preparação de evento tão alardeado e ansiado pela sociedade não deveriam ser apenas de âmbito logístico, mas sobretudo pedagógico: por que e como formar leitores?

Se a primeira questão parece ter uma resposta consensual, levando em consideração toda uma tradição humanística, a segunda tem sido um desafio. Ora, nesse sentido, qualquer evento em torno da leitura, já que a existência real de um livro só se concretiza no ato da leitura, deveria somar esforços e pensar projetos que a façam chegar à sala de aula efetivamente.

Agendar visitações, facilitar o transporte escolar, fornecer vales-compra para professores e alunos são iniciativas louváveis, mas que fatalmente naufragarão se não tivermos professores-leitores, bibliotecas dignas e, em especial, uma sincronização das atividades agendadas para as bienais do livro, quaisquer que sejam elas.

Sendo mais sincera ainda, há muito não participava de uma, sequer como mera espectadora. Não mais acreditei nelas na maioria das cidades. Passei a frequentar eventos menores, como a Primavera dos Livros no Rio e em São Paulo, pois me eram mais satisfatórios. Eu conseguia andar, manusear livros com calma, conversar com livreiros, com amigos, assistir com atenção às participações dos convidados.

Sei que esse depoimento pode soar estranho para uma professora de literatura como eu, cuja essência do que leciona depende de leitura sistemática e renovada. Mas saía desses eventos com um enorme cansaço e com a sensação de que para ler é preciso também de silêncio e contemplação. Rabugices à parte, jamais deixei de levar as programações para minhas turmas, divulgá-las, comentá-las, dizer da importância de oportunidades como essas, convidar amigos, aliciar colegas de trabalho. Algumas vezes, tive a sorte de estar lendo com meus alunos livros cujos autores estariam na programação.

Sei que uma bienal do livro não pode resolver problemas estruturais da educação como a triste estatística do baixo índice de leitura inclusive entre professores. Um professor que não é leitor jamais formará alunos leitores, apenas os afastará cada vez mais dessa prática. Uma escola desprovida de biblioteca é com uma casa sem paredes. Não se sustenta. Ora, como, então aproveitarmos eventos como esses que mobilizam milhões de reais e que colocam à disposição, durante o período de sua realização, uma fantástica fábrica de sonhos?

Se as programações são decididas com antecedência, homenageados escolhidos, nomes agendados, por que não investir no diálogo com as escolas? Por que não formar projetos de leitura específicos, orientar professores para escolha dos livros, também convidá-los à leitura antecipada? Por que não seduzir alunos para os encontros que se darão depois? Por que as escolas não podem receber, antecipadamente, exemplares dos livros cujos autores estarão na programação? É dessa falta de articulação que falo, dessa lamentosa lacuna.

A leitura não é “um bem” de consumo imediato. O livro até pode ser. A leitura é um processo. Há protocolos, rituais. A leitura é uma construção, às vezes lenta, exige preparação, alguma teimosia e sobretudo defensores, divulgadores, disseminadores. Recentemente, ouvi um especialista falando num telejornal da Rede Globo que não deveríamos recusar leitura alguma a uma criança. Leiamos o que ela nos pede. Fiquei intrigada. Ler mesmo aqueles livros que julgamos inadequados, pouco construtivos? Depois pensei que só lendo abundantemente é que uma criança pode discernir por conta própria “o que ler e para quê”.

Essas ideias me ocorreram porque, num dos dias em que fiz a mediação de uma mesa na 7ª Bienal de Campos, fiquei assustada, como há muito já não frequentava uma, com o número de crianças e adolescentes que transitavam conduzidos por algum professor ou a esmo como se num parque de diversões. Entendo que, para muitos, a estrutura de um evento desse porte pode se assemelhar a tal entretenimento. Mas entenderia melhor se percebesse, de fato, que lá estavam porque ler pode ser, além da mais eficiente estratégia de aprendizado, a “maior diversão”!

(Analice Martins)

Literatura para quê?

“Ai, palavras, ai, palavras,/ que estranha potência, a vossa! (Cecília Meireles)

Depois dos intensos dias da 7ª Bienal do Livro em Campos e de sua diversificada programação, muitas inquietações voltaram me perseguir. Para apaziguá-las, transformo-as em questões às quais pretendo responder neste artigo de hoje e no próximo.

Um livro não existe sem a leitura. Quando não lido, é linguagem muda. É experiência física, apenas ocupa espaço, mesmo que nas páginas da internet. Um livro sem leitores só existe para quem o escreveu. Para que ganhe vida, é preciso que encontre quem o abrigue nos sentidos e na cognição. Portanto, uma bienal do livro deveria ser uma bienal da leitura, fomentá-la e consolidá-la. A compra do livro pode ser um de seus resultados, mas não necessariamente o primeiro. A “venda” do desejo de ler e de sua importância para a formação crítica do sujeito deveria ser sua preocupação norteadora.

Entre os diversos tipos de leitura possíveis, existe a literária que, além de ser a “maior diversão”, talvez seja também a que mais intervém na ampliação de horizontes reflexivos e imaginativos do leitor. Por isso, começo respondendo à pergunta que me move os passos diários. Retomo a introdução feita para um artigo que apresentei em um congresso há alguns anos.

“O olho vê, o coração revê, e a literatura transvê”. Assim responde o poeta mato-grossense Manoel de Barros, no documentário “Janela da Alma”, quando interpelado sobre os sentidos da visão.

A literatura, enquanto manifestação artística dos estados anímicos e sócio-políticos do sujeito, fornece um ângulo de visão, uma perspectiva para além, uma luneta ou um “close”, muitas vezes inesperados, sobre a realidade empírica que nos circunda. Definida como uma linguagem opaca, em contraposição à transparência exigida aos discursos jornalísticos, científicos ou historiográficos, a linguagem literária recodifica a realidade subjetiva e coletiva dos indivíduos. Nesse processo de desautomatização e de estranhamento, como asseverou a corrente crítica dos formalistas russos, estaria o deslocamento transgressivo operado por ela, que, muito longe de provocar a alienação e o evasionismo das condições contingenciais da realidade, é capaz de intensificar os seus sentidos, de elucidá-los, de desdobrá-los e de recriá-los.

Por que, então, a literatura é ainda percebida tão-somente como atividade compensadora de frustrações e dores? Por que a literatura ocupa ainda um espaço atribuído à ordem do belo e do sublime, como se imaculada fosse ou como se a ela não estivesse destinada a “marca suja da vida”, como propõe Manuel Bandeira em sua “Nova Poética”? E por que, se tal espaço lhe é ainda conferido, como mecanismo distintivo, ela deixou de ter a primazia da educação sentimental dos sujeitos pensantes para ser a prima pobre das manifestações artísticas da contemporaneidade?

O mesmo mecanismo que sempre conferiu à literatura a prerrogativa da formação dos sujeitos na sociedade parece, nos dias atuais, marginalizá-la com a pecha da falta de pragmatismo, de utilidade. Pois é justamente nesse entroncamento que reside a sua pujança. Ao recriar as experiências subjetivas ou coletivas, a literatura fissura o sentido único com o qual se fundam determinadas verdades históricas. Ao apresentar uma “visão míope, distorcida, esgarçada e opaca”, a linguagem literária, em vez de subtrair significados, acrescenta realidades suplementares com as quais a decodificação do mundo e das vivências históricas fica mais segura e compreensível.

Sem ter que ser apenas da ordem do belo e sem ter que responder aos apelos pragmáticos de uma sociedade que se autodevora na instantaneidade do presente, a literatura retarda, obriga o leitor a se deslocar do comodismo de suas verdades, cospe-lhe na cara (ou talvez, de forma mais nobre, como queria Bandeira, “faz o leitor satisfeito de si dar o desespero”).

Como propôs o poeta Eucanaã Ferraz, no prefácio-manifesto da sua antologia de poesia, intitulada “Veneno Antimonotonia”, a literatura deve funcionar para desestabilizar sentidos e não para reconduzir ao equilíbrio e à normalidade, porque, para isso, existem os mecanismos de autoajuda. Literatura é para desvelar, para revelar, para estranhar, para desentender. Nesse confronto que nos rouba do tédio das palavras ordenadas e dos sentidos únicos, está a sua urgência e a sua grandeza como forma sensória e cognitiva.

Ainda recorrendo à outra metáfora, é possível pensar a função da literatura como o nocaute que leva ao chão, com um só golpe, o leitor, como bem definiu Julio Cortázar na sua célebre distinção entre o conto e o romance. Sim, porque, em algum momento, a literatura deve nos nocautear para que recobremos os sentidos sobre o mundo. Resta saber se a sociedade contemporânea ainda se predispõe a esse desassossego.

(Analice Martins)