O oco

                                                  “A vida dói” (Iberê Camargo)

Qual o menino morto

na tela ocre

do sertão

de Portinari,

 *

 esse outro

 – também cândido –

 agonizou

 à beira-mar.

* 

Braços impotentes

recolheram a dor

de travessias

horrendas,

*

sem horizontes

sem divisas

sem acenos

sem nada.

 

(Analice Martins)

19 ideias sobre “O oco

  1. Hoje, pela manhã, ao assistir ao jornal, chorei pelo menino, por seu pai sobrevivente, por todas as demais crianças e pessoas que estão vivendo aquele abismo. Quanta violência!!! Quanta estúpida ignorância!!!

    P.S.: Estava com saudade!

  2. Amei a forma poética dada a um fato tão triste e que comoveu muitas pessoas. Sua sensibilidade nos faz reviver a tragédia, humanizando pessoas que, diariamente, são vistas por todos como se fossem ninguém. Beijos

      • Penso que, perante o horror e a tragédia, enquanto ainda não ficamos à deriva, ou mortos na praia mais distante após cruzar todos os mares possíveis, é ainda a poesia uma das formas da gente escapar ou de aliviar um pouco essas dores de mundo e vida. Infelizmente, o menino sírio será esquecido depois dessa onda toda que nos arrasta. Tudo dói.

          • Mais uma vez a imagem do desespero foi captada! Em fotos, vídeos, poema… Uma poesia que faz alma doer. (Meu menino tb tem três anos… Aí dói mais ainda)

          • Angela Ro Ro em “Só nos resta viver” diz:

            “Dói em mim saber
            Que a solidão existe
            E insiste no teu coração
            Dói em mim sentir
            Que a luz que guia
            O meu dia
            Não te guia, não

            Quem dera pudesse
            A dor que entristece
            Fazer compreender
            Os fracos de alma
            Sem paz e sem calma
            Ajudasse a ver
            Que a vida é bela
            Só nos resta viver

  3. Brilhante associação, Analice! Mais uma vez a vida imita a arte. O realismo de Portinari é o choque do real representado pelos retirantes de hoje. É uma obra que também vemos na tela, mas da TV.

  4. Ocinei, você sempre “atualiza” os meus textos com seu repertório de leituras, canções e memórias.
    Há tanto eu não “ouvia” essa canção de Ângela Ro Ro

  5. Experimentamos um momento no qual quem tornou-se “o menino”, ora tão citado em imagens e palavras fortes, ora esquecido por conta dos assuntos tantos que surgirão, cai sem vida(sem esperança) perante as injustiças… Estamos impotentes, inertes, “mortos”?Ou será possível fazer um pouco mais para mudar o que por, inúmeras vezes, nos assola neste mundo???
    Quantos meninos precisarão sucumbir para que os homens voltem seus corações ao que realmente importa?

  6. E o mundo começa a se dar conta de que aquele menino sírio é um dentre milhares que morrem nestas horrorosas sagas, ou nos terríveis conflitos.
    Mais uma estação da via crucis humana. Será que haverá luz no fim do túnel, luz de dentro do túmulo?

  7. Analice, calma. O mundo é cruel, até demais. As dores estão por aí, em toda parte. E eu falo da dor social, da crueldade e indiferença perante os que carecem do mínimo para sobreviver. Fome, cracolândias, falta de teto, frio debaixo de marquises, sem amor, carinho e solidariedade. Velhos nos asilos, crianças abandonadas, panelas vazias, pessoas morrendo nos corredores dos hospitais. É tanta dor, miséria e abandono …. Somos impotentes. Eu detesto jogar comida fora sabendo que tantos não comem. Já chorei por ver velhinhos em filas do INSS, sem agasalhos, no frio. O que podemos fazer? O que está ocorrendo atualmente é um agravamento gigantesco do desespero humano: pessoas buscando sair da zona de perigo em busca de um pouco de segurança. Mas nenhuma nação os quer. E eles arriscam a vida por desespero. Eu te entendo, Analice, mas a dor está em cada esquina. Se cuide! Beijos

  8. Concordo plenamente, Emar. A dor – social, física, psicológica, existencial – está por toda parte. A criança síria talvez não seja uma dor maior diante de tantas outras relegadas pela indiferença governamental ou mesmo pessoal. Mas emblematizou, qual a menina da Guerra do Vietnã, o resultado das crises políticas cujos prolongamentos são “rosas hereditárias”.

  9. Bela homenagem ao menino Aylan e a todos aqueles que se lançam à procura de uma esperança e que encontram a porta fechada dessa Europa-Fortaleza, cheia de muros e grades e arame farpado.
    Que possamos abrir as nossas portas e nossos corações para aqueles que vivem os horrores da guerra, da devastação ou apenas buscam dias melhores. Sírios, nigerianos, haitianos, bolivianos, hermanos!! Às vezes uma realidade que parece tão distante, mas que está na nossa casa!
    Começou semana passada a Cátedra UNESCO no Memorial da América Latina, em São Paulo sobre DESLOCA (MIGRA) MENTOS MENTES, toda quarta-feira. Deixo aqui o link para quem possa interesar: http://www.memorial.org.br/2015/08/catedra-unesco-memorial-trata-dos-deslocamentos-contemporaneos-inscreva-se/
    Um abraço no coração de todos.

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