SEGREDO

O que um livro guarda

nenhuma traça perfura.

*

O oco no papel

não cava um vazio.

*

O que um livro guarda

a água não dissolve.

*

A tinta diluída

não apaga o eco.

*

O que um livro guarda

não se esconde no papel nem na tinta

*

O que um livro guarda

cobre vazios e faz eco.

*

O que um livro guarda

só existe na imaginação.

 

Analice Martins (Grussaí, 18/03/2018)

Xeque-mate

A cidade esquadrinhada no mapa

parece estática:

linhas e fronteiras domadas

em legendas ordenadas.

*

A cidade ao rés-do-chão

é labirinto de passos perdidos,

retórica de deambulações

e falas em transe.

*

A cidade que avisto

do alto do arranha-céu

tem uma geometria previsível.

*

Mas a outra que os olhos percorrem

com a sola dos pés

é tabuleiro de xadrez.

 

Analice Martins – Rio, 26/02/2018

Temporalidades

O tempo não é largo nem pequeno,

muito menos eterno.

*

O tempo é imperioso,

régio e regulador.

*

Quando dócil,

é invisível.

*

Quando irascível,

é um titã.

*

Tempo tempo tempo…

*

Se circular, asfixia;

se retilíneo, dispersa.

*

Nenhum tempo é para todos,

o tempo é o que nos chega.

*

Quando o apalpamos,

somos deuses.

*

Quando o aceitamos,

somos mortais.

*

Quando nos rebelamos,

saltamos de um trampolim.

*

O tempo que temos

não é animal doméstico.

*

O que nos escapa

é alazão estranho.

*

O que vivemos

nunca se aprisiona no pulso.

 

Analice Martins – Grussaí – 05/02/2018

FOTOGRAMA 8: TRAVESSIAS

O tempo suspenso

na cidade eterna

fecha seus ponteiros

sobre mim.

*

Atrás do rio,

a cidade se abre

em becos e vielas

emaranhados em mim.

*

Das janelas avisto,

em perspectivas e camadas,

a cidade

escrita por mim.

*

A outra que se anuncia,

entre as montanhas e o redentor,

tem um mar

que abre os braços para mim.

 

Analice Martins. Roma, 25/11/2017

 

FOTOGRAMA 4: RUÍNAS

O que se decompõe

também conta uma história.

Outra:

pelo avesso.

*

As cores que esmaecem

têm brilho próprio.

Outro:

lusco-fusco.

*

As paredes trincadas

reverberam suas nervuras.

Outras:

cicatrizes.

*

O tempo que se contorce

se ergue em ruínas.

Outro:

natimorto.

Analice Martins. Roma, 18/08/2017.

FOTOGRAMA 3: JANELAS E VIZINHANÇA

Janelas são sempre um convite ao voyeurismo, a uma condição especial de observação. O cinema a elegeu como um ângulo de visão poderoso sobre a realidade em muitas perspectivas: a contemplação, a bisbilhotice, o segredo, a investigação, o suspense, o erótico. A imaginação, sobretudo. Talvez janelas digam mais do que se imagine a partir de um ângulo privilegiado do que do visto explicitamente.

Das janelas podemos nos achar resguardados para olhar de forma inconveniente e curiosa, para criarmos nossas narrativas acerca do que conhecemos apenas pelo hábito diário de olhar. Cada um deve ter sua lista pessoal de “janelas indiscretas”, como também da filmografia que traduz essa temática. O meu preferido é “Não amarás” (1988), do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski. Poderia falar só desse filme, no entanto o que mais me interessa nele é o fato de que, na dinâmica do contato físico, o jovem voyeur capitula, desmonta-se, perde a performance garantida de seu posto, antes, privado, de sua janela particular. Mais não digo para não ser indiscreta e para não colocar a cereja no bolo antes da hora.

Não estou praticando voyeurismo erótico das três enormes janelas do quarto desse apartamento que é meu doce lar em Roma. Nem preciso me debruçar nelas, tudo entra sem cerimônia: sons de passarinhos em revoada; os gritos da “nonna” em dialeto irreconhecível; o inglês e o francês dos turistas dos outros andares; o jardineiro brasileiro falando ao celular no telhado do Horto Botânico; o cheiro do café do andar de baixo; a colina de Gianicolo que vez ou outra subo; a poeira do apartamento ao lado que estava em obras durante umas semanas e a rotina da vizinha no seu piccolo giardino térreo.

O bairro vai-se tornando um lugar e não mais um espaço quando lhe vamos atribuindo significações e narrativas. A vizinhança também ganha essa condição quando a experiência do contato ou do olhar a torna um objeto singular.

A vizinha do apartamento em obras ao lado do meu, enfim, se mudou. Para minha alegria e surpresa, além da simpatia e da preocupação em se desculpar pelos transtornos da obra nas semanas anteriores, é francesa, casada com um italiano e com uma filhinha italiana. Ah, o aconchego de uma língua mais familiar do outro lado do corredor… Em caso de emergência, saberei pedir socorro com todas as letras. Brincadeiras à parte: esse entorno pode tornar-se familiar quando lhe atribuímos sentidos particulares.

A vizinha do piccolo giardino, no pátio três andares abaixo das minhas janelas, deve ser italiana, fala italiano, cumprimenta os vizinhos cujas janelas se debruçam sobre o seu jardim. Rotineiramente molha as plantas, coloca roupas leves para secar, deita-se em uma rede de bangalô e acende velas à noite. Cobria-se na primavera com leve tecido. Agora, banha-se de biquíni, ao sol escaldante de Roma quase 40 graus. O mais importante e curioso para mim: lê todos os dias. O que lê minha vizinha sorridente do piccolo giardino? Parecem livros grossos. Serão best sellers? De que tratam? Em que língua? Será uma cena para Fellini filmar?

Outro dia, tendo dormido com as janelas abertas (será que também sou objeto de algum olhar indiscreto?), espantei-me com rumores de vozes por volta das 5h30min. Quando me debrucei sobre as janelas para verificar o que acontecia, vi uma equipe, no giardino da vizinha, em sessão de maquiagem ou em algum ensaio sabe-se lá sobre o quê. Ela não estava lá. Estranhei o horário, imaginei que tivessem varado a noite, me achei testemunha de algum grande filme a ser lançado. Mas tive que sair para ir à Universidade. Um dia longo para mim que terminaria com um aperitivo com meu supervisor já aqui em Trastevere.

Para meu espanto, retornando pelas vielas do bairro por volta das 21h, deparamo-nos com uma filmagem ou ensaio de fotografia. Quem lá estava??? A equipe toda que eu vira de manhã no piccolo giardino da vizinha.

Quando nem tudo se alcança ou escuta, o olhar é um ótimo exercício de imaginação . Se você tem uma janela, corra para ela.

Analice Martins. Roma, 26/06/2017

FOTOGRAMA 2: ANOTAÇÕES PARA UM ENSAIO

“O lugar é segurança. O espaço é liberdade: estamos ligados ao primeiro e desejamos o outro”.

“Espaço é mais abstrato que lugar. O que começa como espaço indiferenciado transforma-se em lugar à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor”.

“As ideias de espaço e lugar não podem ser definidas uma sem a outra. Espaço permite movimento. Lugar é pausa”.

“Uma pessoa pode conhecer um lugar tanto de modo íntimo, como conceitual”.

“Espaço e lugar são imagens de sentimentos complexos, mutáveis, ambivalentes”.

“O lugar é uma classe especial de objeto. É uma concreção de valor (…) é um objeto no qual se pode morar”.

“O espaço (…) é dado pela capacidade de mover-se”.

“O movimento implica espaço”.

“O lugar é um tipo de objeto: lugares e objetos definem o espaço, dando-lhe uma personalidade geométrica”.

“Para o novo morador, o bairro é a princípio uma confusão de imagens; ‘lá fora’ é um espaço embaçado. Aprender a conhecer o bairro exige a identificação de locais significantes, como esquinas e referenciais arquitetônicos, dentro do espaço do bairro. Objetos e lugares são núcleos de valor”.

” Como as impressões recebidas através dos sentidos adquirem a estabilidade de objetos e lugares?”

“Um objeto ou lugar atinge realidade concreta quando nossa experiência com ele é total, isto é, através de todos os sentidos, como também com a mente ativa e reflexiva”.

“Quando residimos por muito tempo em determinado lugar, podemos conhecê-lo intimamente, porém a sua imagem pode não ser nítida, a menos que possamos também vê-lo de fora e pensemos em nossa experiência”.

“A outro lugar pode faltar o peso da realidade porque o conhecemos apenas de fora através dos olhos de turistas e da leitura de um guia turístico”.

(Reflexões do geógrafo YI-FU TUAN, extraídas do livro Espaço e lugar: a perspectiva da experiência)

Analice Martins – Roma, 04/06/2017