Flashes de viagem

A LÍNGUA

Estou em Portugal pela segunda vez.  Como é bom sentir-se docemente estrangeiro na própria língua, estranhar-se entre sons e palavras. Os deslocamentos territoriais impõem à língua outros fluxos e inflexões. Com o mundo cada vez mais globalizado e interligado pelas tecnologias da comunicação, de fato, não é preciso deslocar-se fisicamente para viajar, mas o corpo empresta à língua uma densidade única. É desejável que ele também goze da experiência desta viagem.

Caetano Veloso sempre teve razão ao cantar que sua pátria era sua língua, mas a língua fora do território da pátria ou mesmo de alguns estados está sempre a roçar em nossos lábios e sentidos, é sempre uma pátria um tanto quanto estrangeira. Nisso, Caetano também tem razão quando canta que gosta de ver a sua língua roçar a de Luís de Camões.

OS LIVROS

Livros e viagens são bons companheiros. Nenhum tipo de viagem é incompatível com tal companhia. Nas minhas, de certa forma, eles são a própria viagem. Estão antes delas, são os seus pontos de partida. Seguem em minhas malas e descortinam-se nas prateleiras dos hotéis, pousadas, hostels, B&B. Estão lá sempre a me acenarem. E derramam-se em cascatas por livrarias e bibliotecas. As cidades também deveriam ser conhecidas pelas livrarias e bibliotecas que têm (ou, infelizmente, que não têm): “Diga-me que livros guarda, e eu lhe direi quem é”.

Assim, não foi com surpresa que me encontrei com Machado de Assis, Jorge Amado e Clarice Lispector. A literatura brasileira fora do Brasil talvez seja sobretudo eles. Paulo Coelho não conta, não tem pátria, mora nos pireneus entre walkírias e alquimistas. Foi com alegria que encontrei, entre as prateleiras de uma livraria de Óbidos, nossos bravos autores contemporâneos: Bernardo Carvalho, Daniel Galera, Rubens Figueiredo, Chico Buarque e até Adriana Calcanhoto e sua saga lusa “renegada”. Percorrer livrarias é também percorrer cidades ou esquecê-las nos mapas de nossas memórias. Tristes as cidades que enterram suas livrarias! Serão sepultadas como indigentes!

Em Coimbra, a Biblioteca Joanina é uma joia do barroco. É espaço de visitação como qualquer monumento que é parte do patrimônio cultural e histórico da cidade. Debruça-se sobre o Mondego. Lá, por entre os livros, avistam-se o rio e as viagens.

OS RIOS

Os rios oferecem uma espécie de identidade aos lugares. Fernando Pessoa já cantara o rio de sua aldeia. Portugal é também o Tejo e o Mondego. É preciso percorrê-los para sentir a alma lusitana, é preciso admirá-los e entender sua geografia para conhecer as cidades e suas gentes.

OS ESTUDANTES E A UNIVERSIDADE

Levei algumas boas horas caminhando por Coimbra no domingo de minha chegada à cidade. As ruas em silêncio deixavam que toda a arquitetura se desenhasse diante de meus olhos. Prédios, igrejas, chafarizes, monumentos, palácios se erguiam de forma abrupta, quase pulando do chão à espera de um olhar atento. As ruas da cidade antiga sobem e descem sinuosas, esgueirando-se em ladeiras. A cidade estava em silêncio até a chegada de seus estudantes. De volta do fim de semana nas casas dos pais, vinham descendo coloridos e ruidosos dos trens, na estação ferroviária A, ao lado do rio Mondego, arrastando malas e mochilas, carregando livros, dirigindo-se às repúblicas.

É comovente perceber o espetáculo do movimento promovido por eles. Coimbra é conhecida por ser uma cidade universitária. Sua alma também está aí. Em uma Europa ainda em crise, com índices crônicos de desemprego, em um país sempre considerado periférico na união europeia, é comovente, sim, ver a força utópica do conhecimento, representado pelo ensino e pela pesquisa universitária. É comovente perceber que “the dream isn’t over”, que é preciso, qual Fênix, renascer das cinzas. “Navegar é preciso”!

(Analice Martins)

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