Guardar: uma lição de poesia

Para Antonio Cicero, que tudo sabia das palavras

 

Quando a palavra

queda só e impotente,

é preciso guardá-la.

Não na gaveta dos bilhetes rasgados,

nem no baú trancado da memória.

É preciso gritá-la.

*

Quando as coisas findam

e o amor se vai,

é preciso guardá-lo.

Não no porta-retratos escondido,

é preciso colocá-lo à vista,

fitá-lo, admirá-lo,

iluminá-lo,

ser por ele iluminado

estar acordado por ele,

porque em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre se perde a coisa à vista.

*

Quando o pássaro se vai,

é preciso guardar seu voo,

porque é só nele que as coisas existem.

Não nelas mesmas.

 

(Analice Martins – Campos, 25/08/2026)

 

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